Disparidade salarial entre homens e mulheres: a luta feminina através do olhar de duas gerações
O G20 Social reuniu movimentos sociais do Brasil inteiro e levantou muitas questões para debater, entre elas, a mulher e o mercado de trabalho. Uma artesã alagoana com mais de 35 anos de atividade e uma jovem estudante carioca de economia participaram do encontro e contaram um pouco de suas experiências.

Por Thayara Martins/ G20 Brasil
“A mulher é uma sofredora”, esta frase de impacto foi dita por Maria Gilvaneide de Sousa, Secretária-geral da Federação das Organizações da Cultura Popular e do Artesanato de Alagoas (Focuarte). A psicóloga e artesã aprendeu com a avó a fazer as chamadas “bruxinhas” - bonecas de pano típicas vestidas com as roupas da cultura pastoril alagoana. Hoje em dia, com mais de 60 anos, ocupa-se mais com as funções administrativas da Federação.
“A gente vive em um estado onde não existem muitas chances e não se valoriza muito o trabalho da mulher, sabe? Então, o dia a dia é uma luta para mostrar o nosso ofício, o nosso artesanato”. Maria Gilvaneide apresenta também uma colega de 82 anos considerada mestra e patrimônio vivo do estado de Alagoas - dona Ivonete Santo dos Anjos. Tímida, ela não quis dar entrevista mas confirmou a vida sofrida das mulheres no Nordeste do Brasil, região em que a força de trabalho feminina está principalmente na informalidade.

De acordo com um estudo do Ministério das Mulheres, em 2022, apenas 24,5% das empregadas domésticas brasileiras tinham carteira de trabalho assinada. Sendo o serviço doméstico predominantemente feminino no país, já que das 5,7 milhões de pessoas ocupadas neste setor, em 2022, 5,3 milhões eram mulheres.
Mesmo com tantas dificuldades, as amigas aguardavam a liberação para mostrar seu artesanato no espaço do G20 Social com alegria. Depois de mais de 40 horas de viagem para chegar à cidade do Rio de Janeiro, Maria Gilvaneide sentia-se feliz e com mais espírito de luta. “Eu acho importante esses movimentos sociais participarem de momentos como este no G20 Social porque abre a cabeça principalmente das mulheres para conquistar o espaço delas. A gente vê que a maioria aqui é mulher mesmo, é guerreira. Então o caminho é esse para alcançar a igualdade de oportunidades com os homens”, afirmou.
Desigualdade salarial
Não muito longe das artesãs, estava uma jovem de olhar vibrante, Luiza de Arruda Assunção, de 19 anos. Ela estava muito animada e falava com entusiasmo sobre o futuro. A estudante da Faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) está em uma turma majoritariamente composta por rapazes. No entanto, Luiza não se intimida, ela gosta da junção de matemática com ciências humanas e sociais, além do mais sente que tem um núcleo crescente de meninas no campo da economia. Por outro lado, sabe que os homens ainda ganham salários mais altos e diz que sua geração tem uma atitude proativa quanto a isso.
“Em várias palestras muitas perguntas são feitas por mulheres e a gente tem muitas professoras que incentivam as garotas. A gente quer ocupar nosso espaço, temos esse direito e a remuneração deve ser da mesma forma que é para eles. Eu tenho muita fé que a gente vai conseguir em alguns anos, espero que quando eu estiver trabalhando isso já seja uma realidade. Eu sei que vai ser muito desafiador no mundo do trabalho, mas não sou de desistir fácil”, disse.
A estudante foi até o G20 Social para assistir palestras voltadas para sua área de estudo e ficou impressionada com a presença de pessoas determinadas a mudar o país, bem como influenciar nos debates da política internacional, que acreditam em desenvolvimento não só financeiro mas social também.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) as mulheres trabalham, em média, três horas por semana a mais do que os homens, combinando trabalhos remunerados, afazeres domésticos e cuidados de pessoas. Mesmo assim, e ainda contando com um nível educacional mais alto, elas ganham, em média, 76,5% do rendimento dos homens.
G20 Social, mulheres e economia
O tema das mulheres e o mercado de trabalho foi discutido nas ações auto gestionadas “Economia feminista como alternativa frente a crise mundial” e “Superação das Desigualdades entre homens e mulheres no Mercado de Trabalho: a relevância da Lei de Igualdade Salarial”. Os debates fizeram parte da programação do G20 Social no Rio de Janeiro.