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POD20 BRASIL

POD20 Brasil #2 - Mulheres

W20 é a sigla de Women 20, ou Mulheres 20, um dos treze grupos de engajamento do G20. Criado em 2014, o W20, que é uma organização da sociedade civil, sem participação do governo, tem o objetivo de elaborar recomendações para políticas públicas em prol do empoderamento das mulheres. Ouça a entrevista com a presidente do W20 Brasil, Ana Fontes.

05/07/2024 07:00 - Modificado há 9 meses

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Transcrição

Carlos Alberto Jr.: W20 é a sigla de Women 20, ou Mulheres 20, um dos treze grupos de engajamento do G20. Criado em 2014, o W20, que é uma organização da sociedade civil, sem participação do governo, tem o objetivo de elaborar recomendações para políticas públicas em prol do empoderamento das mulheres. O Brasil participa desse grupo desde 2017, e a Coordenação do W20 estabeleceu cinco Áreas Temáticas para trabalhar, ao longo da Presidência Brasileira. Mas quem vai falar sobre isso é a Ana Fontes, que é a presidente do W20 Brasil. Eu sou Carlos Alberto Jr. e esse é o POD20 Brasil. Vamos nessa!

Tudo bem, Ana Fontes, bem-vinda ao Pod 20, o Podcast oficial do G20. Você é a chair do W20. W20 é um dos Grupos de Engajamento do G20. E essa palavra, Grupo de Engajamento, provoca um monte de confusão com o as Trilhas do G20 oficial, digamos assim. A Trilha de Sherpas, que já é outra encrenca, a palavra sherpas, mais a Trilha de Finanças. A gente vai falar um pouquinho sobre isso tudo, mas eu vou pedir primeiro para você fazer uma brevíssima apresentação sua antes da gente começar esse bate-papo.

Ana Fontes: Muito bacana, Carlos, é realmente uma confusão. Eu acho que diariamente eu respondo essas perguntas. O que é G20? O que são os grupos de engajamento? Bom, eu sou Ana Fontes, uma empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, que existe há quase 15 anos. Sou também membro de conselhos consultivos, sou vice-presidente do Conselho do Pacto Global, sou membro do Conselhão da Presidência da República, e faço várias coisas aí, colunista de alguns veículos de comunicação. Mas é isso.

Carlos Alberto Jr.: Muito bem, então, vamos começar pelo começo, que é sempre bom. W20… O G20, a gente sabe que a língua oficial é o inglês. Então, os grupos de engajamento, que são representantes da sociedade civil organizada, que trabalham de forma paralela às trilhas oficiais do G20, tentando levar suas reivindicações e que sejam incorporadas. Então, todas as siglas desses grupos de engajamento são em inglês. Então, eu deixo agora com você para explicar o que é o W20 e o que vocês fazem.

Ana Fontes: É muito bacana. O W20 começou em 2015 na Turquia. O Brasil participa desde...

Carlos Alberto Jr.: Desculpa, é W por quê? Significa o quê?

Ana Fontes: Ah, exatamente. W porque é Women 20. Se fosse em português seria M20, Mulheres 20, Mulheres.

Carlos Alberto Jr.: Mulheres 20, por conta do G20; esse paralelo.

Ana Fontes: De 20 exatamente. Eu participo. O Brasil participa desde 2017. É muito curioso, porque as mulheres às vezes usam W20 ou Women 20. Às vezes elas usam só grupo de mulheres. Então, aumenta um pouquinho mais a confusão. Eu participo, Carlos, desde 2017. Na época o W20 era presidido pela Alemanha. Quem era nossa apoiadora, patrocinadora, madrinha, o nome que a gente quiser dar, sempre é o presidente do G20. Na época, em 2017, era a Angela Merkel. Aqui do Brasil participamos, nesta época, eu e mais duas delegadas. O trabalho do W20, ou Women 20, é um grupo de engajamento. Como você disse, é só sociedade civil, nós não temos setor privado no W20, nós não temos governo na composição do W20. E por que isso? Porque nós queremos que as pautas da sociedade, representadas por organizações da sociedade civil, sejam as pautas prioritárias do W20. Então, a composição dos grupos de todos os países, salvo algumas exceções; a gente tem algumas exceções, alguns países que, infelizmente, ainda colocam uma ou outra pessoa de governo, mas a maioria das delegações são pessoas da sociedade civil. Então, eu sou uma empreendedora social, tem uma professora de um tentem, tem uma líder de especialização em conselhos, tem uma outra de diversidade, e por assim vai. Todas as delegações são compostas dessa forma, com pessoas da sociedade civil. E aí, assim, como é que a gente trabalha? Que essa é uma das grandes questões. Você comentou aí no começo a confusão que as pessoas fazem com os GT’s de Trabalho, que são os Grupos de Trabalho do G20, para determinadas pautas, inclusive tem um GT de Mulheres. E, aí, as pessoas ficam, mas, “pera aí”, tem um GT de Mulheres e tem o W20, como é que funciona isso?

Carlos Alberto Jr.: É, vou aproveitar só, e falar. O Grupo de Trabalho de Empoderamento de Mulheres, que está sob o comando do Ministério das Mulheres, está fazendo a sua estreia na presidência brasileira. Foi criado na presidência Indiana e está tendo a honra, o Brasil está tendo a honra de receber pela primeira vez esse GT aqui.

Ana Fontes: E é uma super responsabilidade, porque o GT é liderado pela ministra Cida e pelo time dela; o que é muito bacana. O GT vai ter uma visão muito mais do governo, uma visão muito mais de política pública, uma visão muito mais considerando as questões governamentais. Mas, tanto no W20, quanto no GT de Trabalho do G20, liderado pela Cida, nós temos um alinhamento incrível. Nós temos conversas, diálogos, nós trocamos ideias sobre as pautas de recomendação. E, aí, vemos como funciona o modelo do W20. Nós trabalhamos durante um ano da presidência, então, no ano passado, nós recebemos das mãos da Índia, que era a presidente de 2023; nós fizemos o que a gente chama de ‘handover’, que é a troca de liderança dos países. Trabalhamos o ano passado e todos os anos anteriores na construção de um documento que a gente chama de ‘comuniquê’. Eu já ouvi as pessoas perguntar, “mas por que chamam de comuniquê?”. Falo: gente, é simples, é um documento que tem que ter duas páginas, com todas as recomendações ali contempladas o mais objetivo e conciso possível. E um detalhe super importante: esse documento tem que ser construído com todas as mãos em todas as delegadas no modelo de consenso, que é uma outra coisa também, que as pessoas têm muita dúvida, “ah, mas como funciona o consenso? Vocês decidem a pauta que vocês vão tratar, e vocês fazem votação?” Não, não é votação. A gente tem que conversar, dialogar, debater, para chegar num consenso de que pauta nós vamos colocar. E, aí, é que é um trabalho bem difícil. Porque, imagina, o G20 e o W20 têm a mesma composição, assim como todos os outros grupos de engajamento, são 19 países, mais a União Europeia e, esse ano o Brasil, também tem a União Africana participando. Então, assim, os debates ficam um pouco mais complexos, porque são visões diferentes de países, visões diferentes das recomendações. E a gente passa alguns meses semanalmente ou quinzenalmente, nos reunindo com as delegadas para fazer a construção desse documento. E, aí, é que o bicho pega.

Carlos Alberto Jr.: É, então, eu vou aproveitar aqui, eu fiz uma cola no site do W20, o endereço estará nas informações aí do episódio. E tem lá, assim, o objetivo, elaborar recomendações para políticas públicas em prol do empoderamento econômico de mulheres. Então, eu vou usar isso de gancho para te perguntar quais são as propostas do W20. Eu sei que vocês têm cinco áreas temáticas. Queria que você falasse... Menciona, primeiro, quais são, e, depois, a gente fala um pouquinho sobre cada uma.

Ana Fontes: Claro, esse ano são cinco áreas que nós vamos fazer a pauta de recomendações. Três delas nós trazemos das edições anteriores, ou seja, são pautas que nós continuamos as recomendações, que são mulheres empreendedoras, acesso à capital e acesso ao mercado. Essa é uma pauta que continua aqui na nossa presidência. A segunda pauta que nós continuamos é aumentar a participação de mulheres e meninas em áreas de CTEM, que é ciência, tecnologia, engenharia e matemática. E a terceira pauta que nós trazemos ainda é o enfrentamento à violência contra as mulheres, que essa é uma das pautas duríssimas e que a gente tem uma série de recomendações. Essas três pautas nós trazemos dos anos anteriores. Quais são as 2 pautas que o Brasil colocou? Primeiro, a economia do cuidado, que é uma pauta que não vinha sendo debatida anteriormente e é uma das grandes questões pra gente mudar a situação das mulheres. E a outra pauta é justiça climática na perspectiva de gênero, porque a gente sabe que as emergências climáticas afetam mais fortemente as mulheres. Então, nós incluímos essas duas como inovação e a última inovação é que em todos os cinco itens nós temos que olhar nas cinco recomendações, na perspectiva de raça e etnia. E isso é muito difícil, Carlos, porque convencer todos os outros países que deixar de forma explícita e clara a questão de raça e etnia está sendo uma tarefa dura.

Carlos Alberto Jr.: Exatamente. E aí aquilo que você mencionou, a questão do consenso, ele ganha um peso maior, porque é muito mais difícil chegar a um consenso do que simplesmente colocar algo em votação. Você conta os votos, a maioria decide. Sem falar que o G20 tem uma característica interessante, e, até os jornalistas, colegas jornalistas, também têm muita dúvida em relação a isso. O G20 não decide nada, não é porque é um consenso, chegou a ser um consenso e ele vai estar num documento, numa declaração final, não significa que aquilo vai acontecer. São compromissos que os países e organismos assumem implementar cada uma dessas decisões. Então, um líder não é um presidente, ou primeiro-ministro, ele vai voltar para o país dele, e às vezes aquilo que ele acertou no G20 vai exigir mudança de Lei, ele vai ter que negociar com o Congresso, vai ter que convencer a sociedade civil, e nem sempre é possível. Então, são muitas sensibilidades para serem tratadas ao longo do ano. Mas você mencionou as cinco áreas temáticas, três já vem sendo trazidas nos anos anteriores, então, eu queria começar pela justiça climática. Você falou que ela afeta mais as mulheres. Por quê? Convença-me de que afeta mais as mulheres.

Ana Fontes: Porque quando você fala na perspectiva de justiça climática, para ficar mais claro, a gente explica através das emergências climáticas. Vou usar o exemplo do que aconteceu aqui recentemente no Rio Grande do Sul. A quem afeta mais fortemente as emergências climáticas, quando tem, por exemplo, as enchentes que aconteceram no Rio Grande do Sul? Às pessoas mais pobres, às pessoas que têm menos acesso e às pessoas mais vulneráveis. Olhando o Brasil, mas quando a gente expande isso para os outros países, no Brasil os mais vulneráveis são as mulheres e as pessoas negras. Na maioria dos países, os mais vulneráveis são as mulheres, porque não tem, por exemplo, não tem uma casa, não tem uma casa bem estruturada, moram em lugares de extremo risco. Eu estou falando da enchente, que é um exemplo, mas tem um outro exemplo. Quando falta água, que é uma questão de clima, que é uma questão de justiça climática, quem é mais afetado por essa falta d’água? Normalmente as mulheres, são elas que vão carregar água de distâncias longas, com aquela lata d’água na cabeça, para poder trazer para casa. Quando não tem saneamento, que as crianças ficam mais doentes, quem é mais afetado por essa questão do saneamento? Além da criança diretamente, as mulheres, porque se a criança fica doente, quem é mais afetado com a doença dessa criança é quem cuida dela. E, aí, é a mulher, que normalmente é mais afetada. Quando falta água, ela não pode tomar banho, não pode lavar as coisas, não pode cuidar das crianças. Por isso que a gente coloca sempre a questão da justiça climática. Ela afeta mais fortemente as emergências, afetam mais fortemente os mais vulneráveis, e os mais vulneráveis são, normalmente, quem tem menos acesso, quem tem menos autonomia financeira, quem tem menos condição de lugar para morar, quem tem menos acesso a dinheiro e quem fica responsável pelo cuidado. E, nesse caso, são as mulheres. Por isso que a gente colocou neste ano esse tema como sendo extremamente importante, que tem ligação com vários dos outros temas que nós estamos colocando.

Carlos Alberto Jr.: Perfeito. E como é que estão as discussões? Como é que se avança nesse tema? Quais são os itens dos debates em torno desse ponto de justiça climática?

Ana Fontes: É muito interessante, porque você mesmo colocou a questão do consenso, e essa é a parte mais dura de você fazer, porque, não necessariamente, a realidade do Brasil é igual à realidade, por exemplo, dos Estados Unidos. Mas o que é que nós tentamos fazer? Chegar nos pontos comuns e nas dificuldades maiores para as mulheres. Então, esse é o debate que os grupos têm feito. Nós acabamos de construir o documento que, inclusive, vamos apresentar em breve, e, aí, a gente tem olhado muito para essa questão do saneamento, por exemplo, do acesso à água, que é uma questão muito séria. E isso é um problema não só no Brasil, é um problema em vários países. A Indonésia tem problema de acesso à água. Os Estados Unidos, dependendo da região em que as pessoas estiverem, têm problema de acesso à água. E quando você tem, por exemplo, uma emergência, como aconteceu nos Estados Unidos, é... Estou tentando lembrar... New Orleans, por exemplo, que ficou embaixo d’água; uma situação muito semelhante ao que aconteceu aqui no Rio Grande do Sul. Então, foram as mulheres que perderam as casas, que perderam as condições, que perderam a situação. O que é que a gente está sugerindo? Ter uma política pública que tenha uma abordagem sensível a gênero, especialmente para as mulheres em situação de vulnerabilidade, especialmente para as mulheres que não têm acesso a saneamento, inclusive para a proteção dos povos originários. Porque quando a gente fala de justiça climática, que é um tema muito amplo, você tem, por exemplo, aqui no Brasil, a questão dos povos originários, que teoricamente são eles que protegem as nossas florestas, são eles que protegem os nossos biomas. Se a gente não tiver políticas públicas que vão desde demarcação, orientação e que dê prioridade para as mulheres nessas situações, a gente não vai conseguir mudar o jogo. Estou sendo bem genérica para não entrar num debate item a item, mas, na verdade, é isso que nós estamos tentando sugerir. Ter políticas públicas de saneamento que priorizem mulheres, olhando para as emergências para você conseguir ajudar essas mulheres de forma mais rápida. Vou dar um exemplo que nós utilizamos para convencer o grupo de debate. Aqui no Rio Grande do Sul, a maioria que perdeu as casas, que perdeu os espaços ali para sobreviver, foram as mulheres mais simples, especialmente as mulheres em vulnerabilidade, que moram em comunidades e tudo mais. Quando a gente vai trabalhar a recuperação dessas emergências, a gente deveria priorizar uma política pública que está numa situação mais difícil. Não sei se estou me fazendo, clara, Carlos, mas é exatamente isso que nós estamos tentando colocar aqui no nosso documento.

Carlos Alberto Jr.: Não, super clara. Só não enxerga quem não quer.

Ana Fontes: Pois é, a gente espera.

Carlos Alberto Jr.: Os problemas estão aí. As pessoas olham, mas não veem. Então, eu queria... E a ideia é exatamente essa. Você falou bem. Não é o caso da gente realmente detalhar cada ponto. A ideia do “podcast” é a gente dar um gostinho do que é o tema, para a pessoa ficar curiosa e buscar um pouquinho mais de informação, e se engajar no debate, afinal, são grupos de engajamento. Para as pessoas se envolverem nesse debate. Então, vamos falar um pouquinho do segundo item que o Brasil trouxe para a agenda do W20, que é a economia do cuidado. É todo homem, principalmente branco como eu, que não costuma se envolver nesse tipo de situação, né? Fica a economia do cuidado, o que é? E aí passa por várias coisas, né? A invisibilidade que é a mulher que cuida dos pais que estão idosos ou dos sogros que estão idosos, dos parentes, do marido, dos filhos. Isso nunca é reconhecido. E, às vezes, a pessoa tem que... Às vezes, não.

Ana Fontes: Sim.

Carlos Alberto Jr.: Muitas vezes, tem que abandonar a carreira, a profissão, para poder assumir esse trabalho e não há o reconhecimento.

Ana Fontes: Sim. Sim.

Carlos Alberto Jr.: Não sei se eu dei algum “spoiler”, mas, assim, fala um pouquinho mais sobre esse ponto da economia do cuidado, se é um pouco disso que eu mencionei, e como é que isso está sendo debatido no grupo? Como é que está a aceitação dos demais integrantes do W20?

Ana Fontes: A gente ficou feliz, porque a aceitação foi ótima em relação à economia do cuidado. Esse é um tema que, de uns três, quatro anos para cá, ganhou uma relevância, não só no Brasil, mas nos outros países. E, quando nós trouxemos o tema para as delegadas, ele foi super bem aceito, porque todo mundo entende que a economia do cuidado é o fator que vai mudar o jogo para a vida das mulheres. Para ter um pouquinho de dado, 80% da economia do cuidado no planeta é feita por mulheres. Como você adiantou, a economia do cuidado é o cuidado com a família, com os filhos, com os idosos, com os doentes. Então, esse trabalho é majoritariamente feito por mulheres. E qual é a questão? É um trabalho que não é reconhecido, né? Esse é um primeiro ponto, ele não é reconhecido socialmente, ele não é valorizado financeiramente, ou seja, ninguém recebe. As mulheres não recebem por cuidar dos filhos, das famílias e por aí vai. E o terceiro ponto da economia do cuidado é que ela não é compartilhada, não está escrito em lugar nenhum que o cuidado deve ser feito só por mulheres. Não é uma coisa do DNA, de capacidade cognitiva; homens e mulheres podem cuidar. Isso não é uma tarefa que deveria ficar exclusivamente para mulheres. E, aí, qual é o ponto? Essa economia do cuidado, que sobrecarrega as mulheres, que traz um trabalho não reconhecido, não valorizado e não compartilhado, cria um universo absolutamente impossível para as mulheres alavancarem carreira, tocarem os seus negócios. Exemplo das empreendedoras que dedicam de três a quatro horas, às vezes a menos, para o negócio, porque elas têm que cuidar da família, dos filhos e por aí vai. Então, quais são as nossas propostas dentro do W20? Primeiro é ter um novo setor de crescimento para economia, considerar a economia do cuidado como uma economia. Assim, é muito curioso, às vezes eu pergunto quando eu estou nos ambientes fazendo palestra.

Carlos Alberto Jr.: Desculpa, isso é uma encrenca, hein!

Ana Fontes: Pois é.

Carlos Alberto Jr.: Eu quero que você entre na encrenca pra gente saber por que. O primeiro passo é fazer com que seja reconhecido, né?

Ana Fontes: Exato!

Carlos Alberto Jr.: Qual é a construção que vocês estão fazendo para isso acontecer?

Ana Fontes: A construção para ser reconhecida, a gente precisa fazer um trabalho educacional. Por que é que desde cedo as meninas são ensinadas a brincar de casinha? Brincar de boneca? E os meninos são ensinados... Parece uma coisa muito boba, mas não é. A partir dos quatro anos, as meninas são ensinadas que elas têm que cuidar e os meninos que eles têm que brincar de coisas de inteligência, de raciocínio, e por aí vai. E aos meninos, desde cedo, não é ensinado a cuidar. Eu acho que na Suécia tem uma... As escolas ensinam desde cedo os meninos a passar roupa, lavar roupa, dobrar roupa, cuidar das crianças, isso é uma matéria na escola. Então, a gente precisa educar meninos e meninas desde cedo. Ter uma política de educação, que o cuidado seja inserido na vida de meninos e meninas. Então, essa é uma das primeiras coisas que a gente tem que fazer e que a gente está sugerindo aqui. Um segundo ponto é valorizar esse trabalho economicamente. A Argentina criou uma lei há uns três 3 anos, tem vieses essa Lei, mas é uma lei interessante, como um começo, que ela valoriza o tempo de cuidado com os filhos do zero aos seis anos, na aposentadoria da mulher. Então, do zero aos seis anos, é adicionada a aposentadoria dessa mulher, porque ela fez o trabalho do cuidado. O que é que é a pegadinha nessa lei? Por que é que tem que ser só a mulher? A lei deveria ser abrangente, ela deveria falar “quem cuida”, que pode ser o homem ou a mulher. Então, esse é um exemplo do que a gente está falando, como desenvolver um novo setor de crescimento para essa economia do cuidado, trabalhar essa economia a partir da perspectiva de valorização. Um segundo ponto, que é esse exemplo que eu usei da Argentina, é assegurar uma remuneração e uma proteção para essas pessoas que trabalham com cuidado. Por que é que a mulher que está cuidando do pai, do sogro, ela não tem nenhuma remuneração para isso? E aí ela não está protegida, porque ela não recebe o dinheiro, não está inserida economicamente, mas ela está fazendo um trabalho. Porque, mesmo sendo um parente, é um trabalho, o cuidado é um trabalho. E isso é muito importante. Então, a gente está querendo assegurar essa remuneração e a proteção social, e, ainda, eliminar o elevado trabalho informal que existe entre as mulheres, na maioria dos países do G20. Então, assim, o trabalho do cuidado é informal, ele não está nas políticas públicas, ele não está valorizado, ele não está reconhecido e ele não tem um trabalho de educação de base. São esses três pontos que a gente está levantando dentro de um guarda-chuva de criar um plano de economia de cuidado dentro de todos os países do G20. Quando a gente faz o documento, Carlos, a gente faz a recomendação mais enxuta e a gente tem um plano de ação em cada um desses itens. Então, cada um dos itens tem um plano de ação determinado pelas delegadas também.

Carlos Alberto Jr.: Esse da remuneração, então, eu fiquei curioso. Qual é o plano de ação? Porque isso daí... Vou usar a lógica dos economistas, isso aí vai gerar custo para o Estado provavelmente. Isso aí vai estar no orçamento público? As empresas vão ter que entrar nisso? Você quer tirar dinheiro da empresa? Não vai rolar, né?

Ana Fontes: Não, você tem que fazer... Para mudar uma questão social tão arraigada como é a questão da economia do cuidado, você tem que mudar, não só política pública, mas também a mentalidade das empresas. Vou dar um outro exemplo da economia do cuidado, licença paternidade, licença maternidade. Por que a licença paternidade é de oito dias e a licença maternidade é de seis meses? Esse é um item que na economia do cuidado a gente podia mudar essa política. Vou dar exemplo de outros países que fazem isso, que dão uma licença parental de um ano, e essa licença parental pode ser dividida entre homens e mulheres, entre o casal, que pode decidir o tempo de cada um. Aí você pode me responder economicamente falando: “poxa, mas eu vou dar uma licença parental de um ano vai ficar mais caro?”. Sim, mas vai ficar mais caro num aspecto, mas vai ficar mais barato num outro aspecto.

Carlos Alberto Jr.: É, mas eu vou usar até um argumento que eu já ouvi de um empresário assim: se eu tiver que dar seis meses de licença maternidade para uma pessoa, eu não preciso dessa pessoa, porque eu vou ter que colocar ela no lugar dela. Então, você vê o grande desafio. É uma mudança total de mentalidade e cultural.

Ana Fontes: Sim. Por isso que nós colocamos não só a mudança de política pública, mas dentro dessa mudança de política pública, incluir um item muito fundamental que é a educação. A gente não muda a cultura sem mudar a educação. Eu digo educação na visão das pessoas. Quando a gente é, desde cedo, ensinado que só meninas cuidam e só meninos não cuidam, que o menino não pode varrer a casa, que o menino não pode cuidar da criança, mas as meninas podem, a gente está relegando as meninas a um espaço de segundo plano. É como se ela fosse uma cidadã de segunda classe, já nasce obrigada a fazer uma coisa que não tem nada a ver com o DNA, não tem nada a ver com capacidade cognitiva. Então, esse é um ponto importante. Economicamente, se a gente valorizar o cuidado, ele gera mais emprego, ele gera mais economia, ele gera mais consumo, então, ele não é economicamente ruim, ele é economicamente importante. Imagina uma pessoa que não ganha nada para fazer a economia do cuidado e que passa a ter uma remuneração para isso? Imagina que essa pessoa vai consumir e vai girar a economia também. Imagina que essa pessoa vai se sentir mais valorizada e vai buscar outros caminhos na vida dela. Então, assim, tem uma pesquisa da McKinsey, sem querer me aprofundar muito, que mostra exatamente, se a gente valorizasse o trabalho do cuidado, e se as mulheres, por exemplo, tivessem uma remuneração semelhante à remuneração dos homens, adicionaria à economia do mundo cerca de um trilhão de dólares. Porque você traria a valorização de fato do trabalho. Então, falar da economia do cuidado é falar sobre isso, como é que a gente valoriza esse trabalho. Afinal de contas, se eu ou você não tivéssemos alguém que cuidasse da gente, pra gente estar aqui hoje, a gente não estaria aqui hoje, né? Mas isso não é valorizado. O trabalho da sua mãe, da minha mãe e de ninguém que cuidou da gente até hoje, né? Então, é esse o ponto holofote. Não pode ser uma carga só das mulheres. Ela tem que ser uma política social, uma política da sociedade, e pode ser compartilhada entre homens e mulheres.

Carlos Alberto Jr.: É isso. Vou mostrar esse “podcast” depois para os meus filhos. Olha, eu estou cuidando de vocês, hein?

Ana Fontes: É isso aí.

Carlos Alberto Jr.: Ana, então, vamos pegar agora os três outros pontos que herdamos da presidência indiana e das anteriores, que acho que são mais conhecidos. Assim, talvez dê pra gente falar um pouquinho mais rápido. Empreendedorismo... Como é que esse tema se encaixa na agenda do W20?

Ana Fontes: A gente, o Mulheres Empreendedorismo, a gente tem uma crença que tem um potencial absurdo de movimentar a economia quando a gente apoia as mulheres empreendedoras. No Brasil, quase metade dos pequenos negócios são liderados por mulheres. E essa realidade varia de país para país, mas a maioria dos países tem um número significativo de mulheres empreendendo. Qual é o ponto? Elas não têm acesso a capital, acesso a dinheiro. Quando você fala de acesso a dinheiro, é acesso a investidores, acesso a anjo, acesso a fundo de investimento, acesso a microcrédito, por exemplo. As mulheres têm menos acesso do que os homens. Uma das nossas recomendações no W20 é que a gente tenha linhas específicas de acesso a capital, para que essas mulheres consigam dinheiro para desenvolver os seus negócios. Porque ter um negócio e não ter acesso a dinheiro é a mesma coisa que você condenar aquela mulher a ficar sempre nessa situação de sobrevivência. Elas têm mais negócios. O ponto é que elas não têm acesso a linhas de crédito e linhas de capital para desenvolver os seus negócios, e trazer, por exemplo, inovação. Por isso que a gente está colocando aqui, criar mais fundos, criar políticas para que essas mulheres tenham mais acesso. Aqui no Brasil, por exemplo, a gente quer conseguir acesso à base de dados, obviamente, o que é possível via LGPD, para entender por que é que os créditos de mulheres são mais negados do que os dos homens. Porque se elas pagam melhor, se elas conseguem usar esse dinheiro melhor...

Carlos Alberto Jr.: São mais negados, é? Das mulheres? Estou chocado agora aqui.

Ana Fontes: Sim, são mais negados. O acesso à capital para as mulheres é mais difícil, é mais sofrido. Tem várias questões. Uma questão de educação financeira, porque o território do dinheiro sempre foi um território mais masculino do que feminino. Então, a gente também tem que trabalhar a educação. Mas um dos pontos que nós colocamos aqui, para ser bem breve, é da gente criar políticas de acesso à capital, priorizando pequenos negócios liderados por mulheres. Nas edições anteriores, foram sugeridos a criação de fundos, mas esse dinheiro não chega, especialmente para nossos países em desenvolvimento, os países do Sul Global, o que a gente está sugerindo aqui é para que os países criem de verdade iniciativas e políticas de acesso a capital para essas mulheres.

Carlos Alberto Jr.: Para você ver como tudo está conectado, né? Há uma interseção transversal, porque tem um grupo de trabalho da Arquitetura Financeira Internacional, que é exatamente isso. Às vezes o dinheiro está lá, e as pessoas não conseguem acessar.

Ana Fontes: Exato.

Carlos Alberto Jr.: E não é só para países, também para cidadãos.

Ana Fontes: Exatamente. Exatamente, esse é o ponto. Se as mulheres não têm acesso, elas precisam ter acesso. Como é que a gente faz isso? Criando política, para que a gente tenha o que a gente chama de dinheiro carimbado. Porque não adianta falar, eu vou dar crédito para mulher, mas na ponta o dinheiro não chega para mulher, ele vai para outras pessoas. Então, esse é um dos pontos que nós temos colocado para poder mudar esse jogo no que diz respeito a mulheres empreendedoras. Só um outro item, um em relação a mulheres empreendedoras, que eu acho que é muito bacana, é muito simples e eu tenho batido nesse item em vários outros lugares, também em outros países, que é compra sensíveis a gênero, que os Estados Unidos tentou colocar, está tentando colocar uma política bem interessante, que é um percentual das compras de empresas do governo e de empresas privadas, ser destinada a pequenos negócios de grupos minoritários, como as mulheres, por exemplo.

Carlos Alberto Jr.: Olha que interessante.

Ana Fontes: Isso muda o jogo. Isso é muito bacana, e isso nós estamos sugerindo também aqui no nosso documento, e é muito possível de fazer, porque não é uma política tão complicada. Já existem programas que fazem isso, mas tornar isso uma política pública mudaria o jogo.

Carlos Alberto Jr.: Já existem programas bem-sucedidos em operação, que poderiam ser incorporados e adotados como políticas públicas.

Ana Fontes: Exatamente. Como políticas públicas. É isso que a gente vem tentando fazer com que a gente seja, com que a gente implemente. Aqui no Brasil a gente tem algumas iniciativas de exemplo. Nos Estados Unidos tem, e em vários outros países, que é possível a gente implementar.

Carlos Alberto Jr.: Tá bem. Então, vamos para o quarto item que é Mulher STEM, do inglês, Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Aquilo que você falou um pouquinho: menina vai brincar de casinha e o menino ganha um carrinho, um computador.

Ana Fontes: Exato.

Carlos Alberto Jr.: E, olha, todas as mulheres que eu conheço e que eu conheci na vida são todas muito mais inteligentes do que eu, muito mais competentes do que eu. Então, assim, eu acho um absurdo. Deve ter sido algum recalcado que lançou essa ideia de estar brincando de casinha, porque ele não quer que isso transpareça. Mas como é que isso entra na agenda do W20 em termos de prática realmente e de propostas que vocês vão levar? E, aí, você pode até mencionar também esta semana. Hoje é dia 2 de julho, né?

Ana Fontes: 2 de julho.

Carlos Alberto Jr.: Terça-feira, que estamos gravando essa semana. Os Grupos de Engajamento se reúnem com a Trilha de Sherpas, né? Os Sherpas, que são os representantes dos presidentes e dos primeiros-ministros.

Ana Fontes: Exato.

Carlos Alberto Jr.: E que vão receber pela primeira vez, propostas da sociedade civil. Mas foca primeiro, um pouquinho aí na questão das meninas, nessas áreas mais tecnológicas, o que vocês vão apresentar?

Ana Fontes: É muito bacana, porque assim nas áreas de STEM, que é a sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, a participação de meninas nos últimos anos em todos os países não vem aumentando significativamente. É entrando nessas universidades e isso o que é que significa? Significa que as meninas ainda não estão achando que essa é uma possibilidade, e a gente precisa trabalhar para que as meninas considerem isso como uma possibilidade. O que é que nós estamos colocando aqui como recomendações? Investir em programas transformadores, que abordem essas barreiras enfrentadas pelas mulheres, melhorar, incluir e Alpha. A gente chama de letramento digital a alfabetização digital. Melhorar a acessibilidade. Tem alguns países em que as meninas têm menos acesso, por exemplo, a celular e aprender e a usar o digital. Ter relevância e preocupação com a segurança e proteção dessas meninas nesses ambientes. Não sei se vocês acompanham a questão da segurança dos “stalkers”, da violência digital. Ela afeta mais fortemente as meninas, né?

Carlos Alberto Jr.: Sim.

Ana Fontes: Então, esse é um trabalho que a gente também está colocando aqui na recomendação. E esse ano entrou um tema muito pesado nas discussões, que é desenvolver princípios éticos para a inteligência artificial em ambiente global. Ou seja, o G20, o W20 está recomendando que incluam em todas as recomendações para IA, para Inteligência Artificial, uma lente de gênero para garantir a igualdade de condições e oportunidades para as mulheres e, principalmente, para evitar preconceitos. É, você tem hoje algumas inteligências artificiais que você faz a tal da pergunta que eles chamam de “prompt”, você faz a tal da pergunta e a gente recebe respostas machista ainda.

Carlos Alberto Jr.: Por um homem.

Ana Fontes: Você recebe respostas sexistas das próprias inteligências artificiais, porque elas foram criadas majoritariamente por homens brancos. Então, o que a gente está colocando aqui, é que em toda política de Inteligência Artificial seja incluído uma lente de gênero, para poder a gente não ter reproduzido na Inteligência Artificial a mesma questão que nós temos em todos os outros ambientes. Então, nós consultamos vários especialistas. Esse foi um dos debates mais quentes, porque cada país está construindo agora a lei de Inteligência Artificial. O próprio Brasil está no meio desse debate de: O que é que pode? O que não pode? Como é que as “fake news” afetam mais as mulheres? Outro dia a gente viu uma campanha de uma, não vou falar o nome, de uma política que usaram a imagem dela, colocaram outra, outra é forma dela falar, colocaram outra voz, e essa mulher tem um problema super sério, porque a Inteligência Artificial criou uma coisa que não é ela, e não está identificado em canto nenhum que não é ela. Então, assim, a gente está pedindo para que todas as leis ou as regras que forem criadas para Inteligência Artificial abordem, coloquem, uma lente de gênero, uma vez que as mulheres são as mais afetadas por essa nova construção. Então, essa é uma outra temática que deu muito debate, muita construção, muita discussão. Mas, finalmente, a gente conseguiu chegar a essas recomendações.

Carlos Alberto Jr.: Tudo bem. Então, o último ponto dos cinco, que é a violência de gênero. Enquanto você estava falando aqui, eu tinha levantado um material, que no ano passado, pelo menos oito mulheres foram vítimas de violência doméstica a cada 24 horas. Os dados, eu estou olhando aqui uma notícia da Agência Brasil, que é uma agência séria, os dados referem-se a oito dos nove estados monitorados pela rede de observatórios da segurança, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Então, violência contra a mulher não é um privilégio do Brasil.

Ana Fontes: Não.

Carlos Alberto Jr.: É algo que acontece no mundo inteiro. E como é que esse tema está em debate no W20? Que tipo de propostas vocês vão apresentar?

Ana Fontes: Esse é um tema muito duro, Carlos, é um tema muito doído, porque ele afeta, infelizmente, todos os países, porque a violência é uma questão cultural que está impregnada na sociedade. A gente chama isso, a raiz é a misoginia, que é o ódio às mulheres, esse ódio social às mulheres. O Brasil é um dos países que ocupa as primeiras posições, infelizmente, em relação ao tema violência. Quando a gente fala violência, a gente fala de violência doméstica, a gente fala de feminicídio, que já é classificado, que foi uma vitória a gente conseguir classificar o feminicídio e as violências sexuais, mais fortemente a questão do estupro. Então, assim, é triste a gente ocupar essas posições, mas isso, infelizmente, pior ainda, é uma realidade de todos os países. O que a gente está recomendando? Desenvolver e fazer cumprir leis e regulamentos para prevenir, acabar com a impunidade, principalmente em relação à violência física, financeira, sexual e psicológica. A gente tem as mais diversas formas de violência. A gente está querendo trabalhar não no combate depois que a violência aconteceu, a gente quer trabalhar muito na prevenção. Como educar os homens para não serem violentos? Como educar desde cedo para que a violência não seja normalizada e não seja esse horror que a gente vive hoje? Aqui no Brasil, o Fórum de Segurança Pública tem dados muito estruturados sobre a violência. A maioria no Brasil, acho que por ano, 1.300 mulheres são assassinadas pelos companheiros, e nas idades de 25, entre 25 e 40 anos, ou seja, no auge da vida dessa mulher. E essa é uma realidade horrorosa. Elas são assassinadas; isso é um tema coloridíssimo. Comprometer e fortalecer, implementar políticas e estratégias de estruturas de apoio abrangentes, em linha com as diretrizes que a gente chama Diretrizes de Chamada Ação, ou seja, primeiro, trabalhar a prevenção. Depois, a violência aconteceu. Como é que a gente acolhe essa mulher? A gente tem delegacias, nos outros países também tem, mas não só isso funciona. As delegacias da mulher são um exemplo. Aqui no Brasil, elas não estão em todas as cidades. Como é que a gente faz? Elas não estão 24 horas. Como é que a gente faz para que essa mulher seja atendida, seja acolhida? A gente está sugerindo a criação de políticas públicas que consigam de fato atuar para ajudar essas mulheres. A gente incluiu também reconhecer, integrar. É uma sigla, que são regulamentos e políticas nacionais, e considerando o arcabouço, eu sei que é uma palavra mais difícil, internacional, comum para combater todo tipo de violência. Isso é super importante. A gente também tem discutido muito, não está na recomendação primária, mas está no Plano de Ação, a gente criar uma base de dados que seja comparável entre os países, porque cada país usa uma visão diferente. Cada país usa uma classificação diferente. Esse é um ponto também que a gente quer trabalhar. Enfim, a gente quer, obviamente, como nosso objetivo, eliminar todo tipo de violência, seja em casa, no trabalho, no ambiente, conflito, violência financeira. Tem casos muito absurdos. Onde a mulher faz sucesso, onde ela ganha dinheiro. O companheiro vai lá, tira o dinheiro dela, ou desvia, ou tira ela, essa mulher à frente desse ganho financeiro. Isso é uma violência que está entre a violência psicológica, a violência financeira e violência patrimonial. Então, essa é a nossa recomendação, trabalhar a prevenção e trabalhar a ação, ou seja, uma rede de acolhimento para que aquela mulher que sofreu violência consiga ser acolhida também.

Carlos Alberto Jr.: Muito bem, Ana. Acho que deu um panorama bem interessante assim, para despertar o interesse das pessoas. Pra gente finalizar, eu vou deixar você fazer uma manifestação final, mas que você mencionasse nessa sua fala final, como é que as mulheres podem participar dos debates do W20. W20 que é da sociedade civil organizada, Mas como é que as pessoas chegam ao W20? Como é que participam? É uma panelinha? Qualquer pessoa pode chegar? Vocês vão dominar o mundo? Como é que é esse processo aí? Lógico, eu estou brincando aqui, mas como é que é? É importante que as pessoas participem e acompanhem o trabalho.

Ana Fontes: Sim.

Carlos Alberto Jr.: Eu sei que vocês têm um site, vocês estão dentro do site do G20 também, e lá tem algumas informações e tem um link para a página do W20, né? Que eu vou deixar o endereço no final.

Ana Fontes: Exato.

Carlos Alberto Jr.: Mas como é que alguém que está escutando agora essa conversa, e se interessou pelos temas e quer participar do W20, como é que ela faz?

Ana Fontes: Muito bacana. Eu gosto dessa expressão “dominar o mundo”. A gente fala que as mulheres, nós, mulheres, queremos melhorar o mundo. A gente não quer dominar, a gente quer deixar o mundo melhor, uma sociedade mais justa e mais inclusiva para todas as pessoas, né? Não existe uma sociedade justa, inclusiva, deixando a maioria da sociedade como cidadãos de segunda classe, ou não tendo acesso às mesmas condições e às mesmas oportunidades. Esse é o nosso trabalho no W20, mostrar para as pessoas. E como é que as pessoas podem se engajar? Você já falou da questão do site, mas nós promovemos uma série de diálogos, até agora, em todas as regiões do Brasil. Fizemos seis diálogos, estamos indo para o sétimo agora em Belo Horizonte; eles estão todos lá no nosso site. Os que aconteceram, a gente tem lá Notas Técnicas, falta um, acho que falta um acontecer. O diálogo é aberto, as pessoas podem participar, mas como a gente já está na última edição, talvez pessoas que estejam em outros estados não consigam participar. Além de fazer os diálogos em todas as regiões do Brasil, nós transmitimos pelo nosso canal do YouTube, então, acessa lá, também no nosso site, tem o endereço para o canal do YouTube, com todos os diálogos que aconteceram. Então, vocês também podem participar. Fora isso, nós temos e-mail de contato e redes sociais, onde quem quiser fazer uma sugestão, recomendação, falar com a gente, também pode. O mais importante é que o W20, a gente quer sim. Por isso que a gente fez esses diálogos nacionais. É um grupo inclusivo, que conversa com todas as pessoas, que dá espaço para fala de todas as pessoas. Nós tivemos em todos os diálogos a participação de mulheres indígenas, quilombolas, mulheres trans, mulheres 50+, mulheres dos mais diferentes perfis. Porque não adianta a gente construir um documento só nós; somos nove delegadas, só com a gente. A gente queria construir um documento pra sociedade civil, mas com a sociedade civil participando, e foi esse o nosso trabalho. Foi duríssimo, Carlos, porque fazer vários eventos nacionalmente, é muito duro. Você deve saber isso melhor do que a gente, porque vocês estão fazendo vários do G20, e o meu convite é esse: faça sugestão, entre nos nossos canais, nas redes sociais, mande e-mail, aciona a gente na nas redes, têm os perfis de todas as delegadas lá, e o que a gente mais quer é ouvir a sociedade. Construir um documento em consenso não é fácil, mas a gente acredita muito na causa, e a gente acredita muito que ter uma sociedade que respeite, de oportunidade, não seja violenta com as mulheres é o caminho para a gente andar para uma sociedade mais justa e mais inclusiva para todas as pessoas.

Carlos Alberto Jr.: Muito bem. Ana, agradeço demais essa conversa e deixo o convite aqui para todo mundo entrar no site do W20. As informações, os links estão lá nas informações do episódio e espero em breve a gente fazer outras conversas, porque o tema avança e daqui a pouco o Brasil passa a presidência do G20 para a África do Sul e o W20 vai passar por uma presidência sul-africana. Tá bom. Muito obrigado pela entrevista.

Ana Fontes: Maravilha. Obrigada, Carlos, foi um prazer.

Carlos Alberto Jr.: Essa foi a entrevista que eu, Carlos Alberto Jr., fiz com Ana Fontes, presidente do grupo de engajamento Women Twenty. Se você gostou, compartilhe com seus contatos, nas suas redes sociais, indique para alguém que você acha que pode se interessar pelo assunto. Eu também te convido a acompanhar o site e a seguir as redes sociais do G20; todo dia tem um monte de reportagens, publicações e vídeos interessantes sobre tudo o que acontece no G20. Recomendo ainda que vocês sigam o site e as redes do W20; todos os links estão nas informações do episódio. Obrigado pela companhia, e até o próximo POD20 Brasil.

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